monte verde

As aves de Monte Verde – MG

Monte Verde é um distrito do município de Camanducaia, no sul de Minas Gerais, quase na divisa com o estado de São Paulo. É um pólo bastante turístico, cheio de pousadas bonitinhas com arquitetura meio alemã. Lugar simpático, embora um pouco elitizado demais. Lembra Campos do Jordão, só que é bem menor. Eu, que para falar a verdade nem gosto muito de frio, fui até lá fazer algumas trilhas e passarinhar. Fiquei particularmente interessada na região depois que li este texto do Fábio Olmos, escrito para o O Eco, onde ele fala um pouco das aves de Monte Verde. E tem também o relato do Luiz Álvaro, que passarinhou em Gonçalves, outra cidade da região que eu ainda quero conhecer.

As trilhas começam bem perto da cidade, são curtinhas e relativamente fáceis. No primeiro dia saímos da pousada a pé e fomos caminhando pelas ruas de terra até a entrada oficial das trilhas para a Pedra Redonda e para a Pedra Partida. Levou mais de uma hora porque a gente se perdeu e precisou voltar um pedaço, mas o trajeto é bonito e já deu para ver várias espécies de aves, como a tiriba-de-testa-vermelha (Pyrrhura frontalis), o pica-pau-do-campo (Colaptes campestris) e vários quetes (Poospiza lateralis). Depois descobri que os quetes são ainda mais comuns na área urbanizada, dividindo espaço com tico-ticos (Zonotrichia capensis) e pardais (Passar domesticus).

pyrruha frontalis

Tiriba-de-testa-vermelha (Pyrrhura frontalis)

quete

Quete (Poospiza lateralis)

Foi também neste trajeto que comecei a ouvir o som que para mim virou sinônimo de Monte Verde: o canto em notas decrescentes do pula-pula-assobiador (Basileuterus leucoblepharus). Mesmo quando todas as outras aves estavam quietas, ele estava lá, cantando insistentemente!

A trilha propriamente dita não foi tão emocionante, pois chegamos tarde e já haviam muitos turistas. Só o pitiguari (Cyclarhis gujanensis) e a choca-da-mata (Thamnophilus caerulescens) cantavam lá longe, além do incansável pula-pula-assobiador. Mas foi nesta trilha que vi pela primeira vez o sanhaço-frade (Stephanophorus diadematus), ave bastante comum por lá. E a vista, lá do alto da Pedra Partida, valeu o esforço!

choca da mata macho

Macho de choca-da-mata (Thamnophilus caerulescens)

No dia seguinte fizemos a trilha para o Chapéu do Bispo. Desta vez, para ganhar tempo e chegar mais cedo, fomos de carro até o começo da trilha. O tiê-de-topete (Lanio melanops) foi o primeiro a ser avistado. Depois apareceu um agitadíssimo pula-pula (Basileuterus culicivorus), almas-de-gato (Piaya cayana) e, que surpresa boa, um gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) voando lá no alto!

tie de topete

Tiê-de-topete (Lanio melanops)

pula pula

Pula-pula (Basileuterus culicivorus)

Depois de alcançarmos o platô, dois beija-flores deram muita bandeira, vocalizando alto e revelando sua localização: um beija-flor-de-papo-branco (Leucochloris albicollis) e uma fêmea de beija-flor-rubi (Clytolaema rubricauda). Além deles, na vila eu já havia visto um beija-flor-preto (Florisuga fusca) e um beija-flor-de-fronte-violeta (Thalurania glaucopis) aproveitando os vários bebedouros que o pessoal dos restaurantes e pousadas mantêm.

leucochloris albicollis

Beija-flor-de-papo-branco (Leucochloris albicollis)

flores monte verde

Flores, flores e mais flores no platô, a meio caminho do Chapéu do Bispo (à esquerda) ou do Pico do Selado (à direita).

A vista do Chapéu do Bispo é linda, mas confesso que fiquei com medo de subir a pedra (e consequentemente ter que descer, depois) e me contentei em ficar esperando os corajosos. O sanhaço-frade apareceu de novo, bem na minha frente, mas por causa dos vários turistas passando por ali perdi a chance de fotografar… unf! Tudo bem. Foi nesta parte da trilha que conhecemos um casal muito simpático que deu a dica da trilha mais bacana, que viríamos a fazer no dia seguinte: a trilha para o Pico do Selado.

Na volta, uma longa descida, ainda deu para ver um bando de saíras-lagartas (Tangara desmaresti) e três lindos jacuaçus (Penelope obscura).

saira lagarta

Saíra-lagarta (Tangara desmaresti)

penelope obscura

Jacuaçu (Penelope obscura)

Último dia, última trilha. Era sábado, por isso acordamos ainda mais cedo para evitar a enxurrada de gente que vem para Monte Verde aos fins de semana. Afinal, Julho é alta temporada por lá. A caminho da padaria avistamos um bando de tesourinhas-da-mata (Phibalura flavirostris), comendo frutinhos em uma árvore. Num arbusto próximo, encontramos um macho de maria-preta-de-garganta-vermelha (Knipolegus nigerrimus). O dia começava bem!

Tesourinha da mata

Tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris)

maria preta

Maria-preta-de-garganta-vermelha (Knipolegus nigerrimus), macho.

Logo no comecinho da trilha avistamos um casal de arapaçu-grande (Dendrocolaptes platyrostris), mas não apareceram muitas outras aves pelo caminho. Ventava muito. Ainda assim, foi a trilha mais bonita, e mais longa também. A vista lá do alto do Pico do Selado é incrível, e ficamos literalmente na altura das nuvens!

Hora de ir embora. Faltou fazer a famosa travessia Monte Verde – São Francisco Xavier, mas achamos melhor deixar para a próxima. A região é linda e abriga uma avifauna rica, queremos voltar!!! Mesmo quem não gosta de trilhas pode ver muitas espécies na cidade mesmo, como a saracura-do-mato (Aramides saracura), a maria-faceira (Syrigma sibilatrix), o carrapateiro (Milvago chimachima), sabiás-laranjeira (Turdus rufiventris) aos montes, e muitos, muitos outros!

saracura

Bem que o dono da pousada me avisou: essa saracura-do-mato (Aramides saracura) bate ponto lá na horta todos os dias!