bico tucano

O bico do tucano

Trabalhando no meio acadêmico, sempre esbarro em artigos muito interessantes, tanto por conta das descobertas quanto pelas inovadoras metodologias aplicadas. Pensando nisso, resolvi começar a comentá-los aqui no blog. Para começar, escolhi um artigo que saiu em 2009. Gosto muito dele por ser simples e direto (tem apenas 3 páginas!) e tratar de um tema curioso. Resultado do trabalho de pesquisadores brasileiros e americanos, o artigo explicou algo que até então ninguém tinha muita certeza: afinal, para que serve aquele bico enorme dos tucanos?

Muitas explicações diferentes já foram dadas para o bico dos tucanos, que é o maior dentre todas as aves existentes:

  • Um grande adorno para ajudar a encontrar o par ideal (algo que no meio científico chamamos de seleção sexual).
  • Poderia ajudar a predar ninhos de outras aves (pois é, tucanos não comem apenas frutos, filhotes de outras aves são uma excelente fonte de proteínas para eles).
  • Um tipo de alarme visual, auxiliando na defesa de seu território, por exemplo.

O título do artigo, que em português é algo como “A troca de calor proporcionada pelo bico do tucano revela um radiador térmico de controle vascular” mostra qual é a nova hipótese para explicar a importância de um bico tão grande. Ele ajudaria a dissipar calor em dias quentes.

Neste estudo, os pesquisadores usaram como modelo o tucano-toco (Ramphastos toco), que é a espécie de tucano com o bico de maior dimensão. Para provar sua teoria, utilizaram medidores de infravermelho (calor) enquanto variavam a temperatura do ambiente onde se encontravam os animais. Analisando horas de gravações, basicamente eles perceberam que quanto maior a temperatura ambiente, maior a temperatura do bico, e quanto menor a temperatura ambiente, menor a temperatura do bico. No entanto, a temperatura corporal praticamente não variava – afinal as aves são animais homeotérmicos.

tucano

Tucano-toco (Ramphastos toco) em cativeiro.

Desta forma, o bico funciona como um dissipador de calor – um radiador – e a ave regula esse mecanismo modificando o fluxo de sangue pelos vasos que irrigam o bico. Não é muito complicado. Quando o ambiente está muito quente, mais sangue é enviado para os vasos do bico, que são mais superficiais, facilitando as trocas de calor. Assim o sangue retorna para o resto do corpo ligeiramente mais frio, evitando o superaquecimento da ave. Em dias frios, ou a noite, acontece o contrário: menos sangue é enviado ao bico, evitando que a ave perca calor para o ambiente desnecessariamente.

Na verdade, essa técnica é utilizada por muitos outros animais, mas não era conhecida nas aves. Os golfinhos regulam o fluxo sanguíneo em suas nadadeiras com o mesmo propósito, e acredita-se que aquela “barbatana” gigante nas costas de alguns dinossauros teria a mesma função: ajudar a regular a temperatura corporal.

Referência:

ResearchBlogging.orgTattersall GJ, Andrade DV, & Abe AS (2009). Heat exchange from the toucan bill reveals a controllable vascular thermal radiator. Science (New York, N.Y.), 325 (5939), 468-70 PMID: 19628866