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Dando nome aos pássaros: a importância dos nomes populares

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A imagem acima foi criada utilizando nomes que o pardal recebe em diferentes idiomas: inglês, francês, checo, japonês, norueguês, alemão, dinamarquês, sueco… Imagine a confusão! E olha que só usei idiomas listados no Avibase. Quantos outros nomes este pequeno pássaro não deve receber pelo mundo afora?

Esse é um dos problemas dos nomes populares: sem seguir regras, a variedade é enorme, dificultando a comunicação. E o idioma é apenas uma das barreiras. Dentro de um único país algumas espécies mais comuns podem receber diversos nomes. Olha só o exemplo da pomba-de-bando, que é o nome pelo qual eu conheço a Zenaida auriculata. São 25 nomes populares diferentes citados no Wikiaves. Nos demais países da América do Sul, ela também é conhecida por Torcaza ou Paloma Sabanera.

zenaida auriculata

Outro problema dos nomes populares é que nem todas as aves possuem um. É o caso de espécies que ocorrem em áreas pouco povoadas, naturalmente raras ou de comportamento muito discreto. Nomes populares também tendem a descrever os machos, já repararam? Isso acontece porque, nas espécies com dimorfismo sexual, machos costumam ser muito mais coloridos e chamativos que as fêmeas. Como exemplo temos o saí-azul (Dacnis cayana, a fêmea é verde) e o pato-de-crista (Sarkidiornis sylvicola, a fêmea não apresenta crista). De fato, as vezes o dimorfismo sexual é tão acentuado que machos e fêmeas recebem nomes populares diferentes, como se pertencessem a duas espécies. Em alguns lugares o macho de Tachyphonus rufus é conhecido como encontro-de-prata, enquanto a fêmea é chamada de maria-mulata.

Levando em conta essas dificuldades, os pesquisadores utilizam um único nome científico (reconhecido mundialmente) para cada espécie descrita. Esse nome sempre é composto por duas palavras baseadas no latim, por isso o sistema se chama binomial. Em artigos especializados, também é comum acrescentar o nome do pesquisador que “descobriu” a espécie, assim como a data em que ela foi descrita.

Até agora só falei dos problemas no uso de nomes populares. Não condiz muito com o título do post, não é mesmo? É verdade que no meio acadêmico eles não são muito bem vistos, justamente por causarem confusão. Mas existe uma linha de pesquisa muito interessante, chamada etnobiologia, que tenta compreender como os humanos se apropriam dos recursos naturais, tanto do ponto de vista material como conceitual. Nomes populares não surgem por acaso, mas têm origens complexas e culturalmente enraizadas. Podem ter relação com a morfologia da ave (ex.: gavião-de-cauda-curta, Buteo brachyurus), com o ambiente que ela habita (ex.: choca-da-mata, Thamnophilus caerulescens), ter origem onomatopeica (ex: suiriri, Tyrannus melancholicus) ou revelar um comportamento típico (ex.: pula-pula, Basileuterus culicivorus).

Para escrever este texto, tirei muitas informações do artigo do Farias & Alves, citado abaixo. Nele os autores concluem que conhecer nomes populares pode ajudar a:

  • descobrir novas espécies de aves, aproveitando o conhecimento popular regional
  • descrever comportamentos desconhecidos para algumas espécies
  • registrar novas áreas de ocorrência
  • localizar espécies ameaçadas de extinção
  • melhorar a compreensão das relações entre humanos e aves

Eu ainda acrescentaria a importância de conhecer nomes populares para trabalhar com Educação Ambiental. Aves chamam muito a atenção e estão presentes em todos os lugares, inclusive nas cidades. Nomes populares são mais fáceis e alguns garantem uma boa associação com a espécie. Trinta por cento deles têm origem onomatopeica, permitindo despertar mais um sentido ao trabalho de percepção ambiental: a audição. Mais do que isso, nomes populares fazem parte de todas as culturas e não deveriam ser negados.

Referência:

ResearchBlogging.orgGilmar Beserra de Farias, & Ângelo Giuseppe Chaves Alves (2007). É importante pesquisar o nome local das aves? Revista Brasileira de Ornitologia, 15 (3), 403-408