regurgito coruja

Estudando a dieta de aves de rapina através de regurgitos

Geralmente estudar a dieta de uma espécie de ave é algo bastante complicado. Uma opção é passar horas e mais horas em campo, observando o que ela come. Dá trabalho e nem sempre é possível dizer com certeza do que ela estava se alimentando. Outro método, bastante invasivo, é capturar as aves e provocar a regurgitação com uma substância que irrita o aparelho digestivo, como o tártaro emético. Mais polêmico ainda é o sacrifício de aves para a análise do conteúdo estomacal. No entanto, as aves de rapina (Falconiformes e Strigiformes) oferecem uma facilidade enorme para a realização destes estudos: elas regurgitam, naturalmente, grandes pelotas de material não digerido. É só procurar ao redor de seus ninhos ou poleiros que servem como dormitório.

As pelotas são formadas por ossos, pelos, penas e partes do exoesqueleto de artrópodes. É trabalhoso, mas estes restos permitem identificar quais animais serviram de alimento para as aves de rapina, e até mesmo supor qual o tamanho deles (calculando a partir da medida de alguns ossos, por exemplo). Mais do que isso, coletando as pelotas com regularidade, dá até para dizer como a dieta muda ao longo das estações do ano.

O primeiro passo é mergulhar as pelotas numa solução de hidróxido de sódio, para facilitar a separação dos materiais. Depois, uma a uma as pelotas são destrinchadas e os resquícios das presas são separados e classificados. Claro que não é possível encontrar o esqueleto completo de um animal, mas não é difícil achar ossos maiores – como o crânio ou o fêmur – quase intactos. Se forem encontrados um ou dois fêmures, por exemplo, sabemos que apenas uma presa foi consumida. Mas, se encontrarmos três ou quatro, sabemos que foram pelo menos duas.

O interessante é que geralmente pensamos que aves de rapina só consomem roedores ou outros pequenos mamíferos. Quando muito um réptil ou uma ave menor. Mas se observarmos a dieta de algumas corujas e gaviões, veremos que eles se alimentam, e muito, de insetos! Uma pesquisa feita no Rio Grande do Sul mostrou que a coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e o quiriquiri (Falco sparverius) têm uma dieta em que mais de 90% de suas presas são invertebrados. De fato, quanto menor a ave de rapina, mais insetívora é sua dieta. Outro estudo baseado em pelotas de regurgitação, no estado de São Paulo, mostrou que a coruja-orelhuda (Asio clamator) se alimenta principalmente de roedores e marsupiais, enquanto o mocho-diabo (Asio stygius) prefere aves e morcegos. Apesar da coruja-orelhuda ser mais leve que o mocho-diabo, ela consegue capturar animais maiores, provavelmente por causa de suas garras poderosas.

Referências:

ResearchBlogging.org

José Carlos Motta-Junior (2006). Relações tróficas entre cinco Strigiformes simpátricas na região central do Estado de São Paulo, Brasil Revista Brasileira de Ornitologia, 14 (4)
Felipe Zilio (2006). Dieta de Falco sparverius (Aves: Falconidae) e Athene cunicularia (Aves: Strigidae) em uma região de dunas no sul do Brasil Revista Brasileira de Ornitologia, 14 (4)