fogos de artificio

Impactos dos fogos de artifício para as aves

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Gosto de fogos de artifício, como qualquer pessoa. São bonitos e trazem a esperança de um novo ano que começa. Mas já não consigo olhar para eles sem críticas, sem pensar em todos os problemas que causam. Quem tem cachorro em casa conhece o drama, tanto os pequenos como os grandalhões ficam apavorados quando a queima de fogos começa. É de cortar o coração. E com as aves a situação é a mesma. Sem compreender a origem de tanto barulho, muitas se assustam e voam em qualquer direção, chocando-se contra o que vier pela frente.

Uma pequena cidade do Arkansas, EUA, foi manchete no início deste ano, quando centenas de Red-winged Blackbirds (Agelaius phoeniceus) foram encontrados mortos após o réveillon. Fatos semelhantes ocorreram na Louisiana e na Suécia. E o problema se repete em outras comemorações. Em 2007 pesquisadores registraram que um grande número de aves marinhas abandonou seus ninhos após as celebrações do dia da independência em Gualala, EUA. Apesar de muito protesto, os fogos foram proibidos nesta localidade em 2008.

Existem fortes evidências dos efeitos negativos dos fogos de artifício, mas ainda é difícil mensurar seus impactos sobre a avifauna. Não é fácil estudar o comportamento das aves à noite, no escuro. Pesquisadores holandeses foram muito criativos e contornaram o problema utilizando um radar meteorológico, que foi adaptado para localizar aves de grande tamanho corporal, como gansos. Os dados coletados em três réveillons consecutivos demonstraram que após a meia noite estas aves levantaram vôo, muitas permanecendo em torno dos 500 metros de altitude (quando o usual é até 100 metros) e a agitação durou cerca de 45 minutos. Algumas destas aves voaram muitos quilômetros antes de pousar e descansar.

Além do stress pelo qual passam as aves e das mortes causadas durante os espetáculos de fogos, a poluição é outro efeito que costuma ser ignorado. Tanto o processo de fabricação dos fogos como a sua queima liberam percloratos, que contaminam o ar e corpos d’água. Estas substâncias inibem o funcionamento da glândula tireoide, alterando o crescimento, desenvolvimento e metabolismo de várias partes do organismo. Seus efeitos são conhecidos tanto em animais silvestres como em humanos.

Os fogos de artifício existem há centenas de anos e fazem parte de festas celebradas por muitas culturas diferentes. O município mineiro Santo Antônio do Monte é considerado o 2º maior pólo mundial de produção de fogos de artifício, atividade econômica que só faz crescer, ignorando todos os riscos à saúde (além dos acidentes, tão comuns) envolvidos na fabricação e posterior manipulação dos fogos. Ou seja, discutir o uso de fogos de artifício envolve questões ambientais, éticas, de saúde e, como não poderiam faltar, econômicas.

Não acredito que proibir seja uma solução, mas o assunto deveria começar a ser pelo menos debatido. Deve haver maior conscientização de que, por exemplo, shows pirotécnicos não podem ser realizados próximos a áreas de preservação, pois além do impacto para a avifauna existe sempre o risco de incêndios. Outra medida interessante seria concentrar mais a queima de fogos. Assim, as aves teriam mais chances de encontrar um lugar calmo e seguro, ao invés de ficarem voando de um lado para o outro, assustadas por barulhos que vêm de diferentes direções.

Referências:

ResearchBlogging.orgShamoun-Baranes, J., Dokter, A., van Gasteren, H., van Loon, E., Leijnse, H., & Bouten, W. (2011). Birds flee en mass from New Year’s Eve fireworks Behavioral Ecology, 22 (6), 1173-1177 DOI: 10.1093/beheco/arr102

Utley, Sarah Jane. (2002) Perchlorate exposure and effects in wildlife. Tese de Mestrado, Texas Tech University. Disponível em: http://repositories.tdl.org/ttu-ir/bitstream/handle/2346/9121/31295017084079.pdf?sequence=1

Vieria, Carlos Eduardo Carrusca; et al. (2012) Os bastidores da produção de fogos de artifício em Santo Antônio do Monte: degradação das condições de trabalho e saúde dos pirotecnistas. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 15(1), 135-152. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-37172012000100010&script=sci_arttext