chapada dos guimaraes rio claro

Observando aves na Chapada dos Guimarães

A Chapada dos Guimarães fica a apenas uma hora e meia da capital Cuiabá, o que torna seu acesso bem fácil, ao contrário de muitas outras áreas de preservação. Talvez este seja um dos motivos que atraem tantos observadores de aves para o local, além das quase 400 espécies de aves que podem ser encontradas por lá.

Quando chegamos ao município tudo parecia uma verdadeira cidade fantasma, ninguém nas ruas e uma neblina fora do comum cobrindo tudo. Mesmo com toda a névoa, deu para avistar alguns pássaros perto da cidade, como anus-pretos, bicos-de-pimenta, sabiás-do-campo e muitas rolinhas. Fomos até alguns pontos próximos onde é possível observar a paisagem de cima da chapada, porém a neblina não permitiu ver absolutamente nada. Mas a caminhada de volta rendeu um avistamento bem bacana: um araçari-castanho!

anu preto

Anu-preto (Crotophaga ani)

bico de pimenta

Bico-de-pimenta (Saltator atricollis)

araçari castanho

Araçari-castanho (Pteroglossus castanotis)

No dia seguinte a névoa ainda estava lá, então optamos por um passeio na região do rio claro, que fica abaixo da chapada. Lá você pode olhar para qualquer lado e vai ficar deslumbrado, a paisagem é incrível. Fazia muito calor, os animais estavam escondidos. Encontramos apenas pegadas de anta pelos caminhos utilizados pelos carros. Perto dos riachos a vegetação fica mais densa e o clima mais agradável, e foi onde pude ouvir muitas aves. Pica-paus, arapaçus, sabiás, saíras…

De volta à cidade, ainda deu tempo de conhecer a trilha ecológica da Pousada Penhasco. São mais de mil degraus de madeira, com três mirantes para observar a paisagem: quilômetros e quilômetros a perder de vista. Valeu muito a pena, a trilha é super bem conservada e a vegetação, mais florestal, atraí muitos pássaros. De quebra pude ver o soldadinho, que há tempos não avistava aqui em São Carlos.

saíra amarela macho

Macho de saíra-amarela (Tangara cayana)

soldadinho macho

Macho de soldadinho (Antilophia galeata), inconfundível mesmo nesta foto escura

Mais um dia, e finalmente a névoa abandonou a Chapada. Aproveitamos para fazer uma bela caminhada, 16km até o Morro São Jerônimo, o ponto mais alto do Parque Nacional. Durante a maior parte da trilha atravessamos cerrado típico, e ao final encaramos uma pequena – mas intensa – subida até o alto do morro. Neste trajeto encontrei a maria-preta-de-topete. Empoleirada num galho seco, fazia vôos curtos para capturar insetos no ar. Foi neste momento também que o guia chamou minha atenção para um urubu que diferia do resto, lá no céu. Era o urubu-rei.

No alto do morro a vista é de 360 graus. Lá longe estava Cuiabá. Urubus passavam voando tão baixo que até arrisquei alguns cliques com a câmera nova, que ainda não domino direito. Durante o almoço, uma ave de rapina enorme nos deu um bom susto (provavelmente nós é que assustamos ela), mas ninguém conseguiu ver direito o que era.

Caminho de volta, todos cansados. Parada rápida na cachoeira ao lado da Casa de Pedra (aquela da abertura da novela Fera Ferida). Ainda deu tempo de fotografar a fêmea de tico-tico-rei, que estava acompanhada de vários caboclinhos e papa-capins. Para fechar o dia, vista da cachoeira Véu da Noiva, com seus 80 metros de altura.

maria preta de topete

Maria-preta-de-topete (Knipolegus lophotes)

urubu de cabeça preta

Urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus)

tico tico rei femea

Fêmea de tico-tico-rei (Lanio cucullatus)

veu de noiva

Cachoeira Véu de Noiva

Naquela noite, dia dos namorados, fomos jantar na praça da cidade. E uma surpresa nos aguardava: um show de aves voando no céu escuro, iluminadas pelas luzes da igrejinha. Saímos perguntando a todos o que eram, e as respostas iam de papagaios (hã?) a corujas. Até que um rapaz ligou para o pai, um “passarinheiro de longa data” e nos disse que eram bacuraus, mais precisamente o corucão (Chordeiles nacunda). Chegando na pousada revirei o guia de campo e vi que a descrição aparentemente batia, principalmente por conta da faixa branca na ponta das asas.

igreja chapada dos guimaraes

Igreja do município de Chapada dos Guimarães

Último dia, tiramos para descansar. Passarinhamos só na cidade, e finalmente consegui fotografar a ave cujo canto tanto me intrigou em Cuiabá: o catatau. Aliás, a praça estava cheia de fotógrafos de aves, minha câmera ficou pequenininha perto daqueles canhões enormes que eles carregavam. Foi muito engraçado um momento em que avistei um benedito-de-testa-vermelha (Melanerpes cruentatus) e quando dei por mim haviam mais dois fotógrafos ao meu lado, loucos para capturar a imagem.

catatau

Catatau (Campylorhynchus turdinus)

De tardinha fomos até a praça na esperança de fotografar o corucão (não consegui, eles são muito rápidos!) e acabamos passando quase uma hora observando as mais de 200 aves que iam chegando em uma palmeira que servia de árvore-dormitório, em frente à igreja. Maracanãs, xexéus, pardais… todos brigando por um pouco de espaço.

Terça-feira, hora de ir embora para não perder o voo em Cuiabá. E ainda deu tempo de observar uma gralha-do-pantanal durante o café-da-manhã, ali mesmo no jardim da pousada. Nada como estar no Mato-Grosso!

maracana

Maracanã-de-cara-amarela (Orthopsittaca manilata)

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Referências

Lopes, L. E. et al (2009). Aves da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil: uma síntese histórica do conhecimento. Papéis Avulsos de Zoologia, 9-47.