Ilha da Madeira

Passarinhando na Ilha da Madeira, Portugal

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Quatro dias é muito pouco para conhecer a ilha da Madeira, mas foi o suficiente para me apaixonar por este lugar. A ilha é bem maior do que eu imaginava, abrangendo ambientes muito diversos, de florestas úmidas à pradarias. Tudo emoldurado por montanhas recortadas por vales profundos, as paisagens são de tirar o fôlego!

Estive lá em Junho, durante uma visita de estudos organizada pela SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. A programação incluiu os principais pontos para observação de aves na ilha da Madeira e também uma visita às ilhas Desertas, 25 km distantes e que fazem parte do arquipélago da Madeira.

Bastante isolado, o arquipélago é lar de poucas espécies de aves, tanto terrestres quanto marinhas. Mas algumas destas espécies, quatro delas para ser precisa, somente podem ser encontradas lá: o pombo-trocaz (Columba trocaz), o bis-bis (Regulus madeirensis), a freira-do-bugio (Pterodroma deserta) e a ameaçadíssima freira-da-madeira (Pterodroma madeira).

Canário

Canário (Serinus canaria), espécie endêmica da Macaronésia

O arquipélago da Madeira faz parte da região da Macaronésia, que também abrange os Açores, as Canárias e o Cabo Verde. Portanto, na Madeira é possível encontrar algumas aves endêmicas da Macaronésia, como o famoso canário (Serinus canaria). Conhecido aqui no Brasil como canário-do-reino, esta é a espécie que deu origem às várias linhagens de canários criados em cativeiro, que resultaram de séculos de seleção artificial e cruzamentos com outras espécies de pássaros.

Levadas da Ilha da Madeira

Levada dos Balcões

Um dos primeiros lugares em que observamos aves na ilha da Madeira foi a “Levada dos Balcões”. Levadas são caminhos para a água que permitem a irrigação das plantações feitas na ilha. As primeiras levadas foram construídas no século XV e hoje somam mais de 1.400 km (há quem diga que superam os 2.000 km, não sei com certeza). As levadas são uma ótima alternativa para conhecer a ilha da Madeira ao longo de trilhas belíssimas.

Tentilhão

Tentilhão (Fringilla coelebs madeirensis), macho.

Tentilhão fêmea

Tentilhão (Fringilla coelebs madeirensis), fêmea

A Levada dos Balcões é uma trilha bem fácil e termina em um mirante com vista muito bonita. O caminho é encantador e cheio de vida: encontramos melros, toutinegras, papinhos (nome-popular local do pisco-de-peito-ruivo, Erithacus rubecula), pombos-trocaz (bastante arredios, não consegui fotografar) e muitos tentilhões. Os tentilhões madeirenses têm a plumagem bastante diferente dos que ocorrem no continente, constituindo uma subespécie endêmica do arquipélago.

Melro

Melro (Turdus merula)

Toutinegra

Toutinegra (Sylvia atricapilla), fêmea

Ouso dizer que presenciei na Madeira um dos mais belos pores do sol. Chegamos ao Pico do Arieiro por volta das 21 horas e o dia já se despedia. A vista lá do alto, por cima das nuvens e sob as luzes do crepúsculo é algo que vai ficar gravado na memória. Mas o que fazia um grupo de observadores de aves neste lugar e a esta hora? Começávamos nossa vigília em busca da freira-da-madeira!

Pico do Arieiro

Pico do Arieiro

As freiras, mais conhecidas aqui no Brasil como grazinas ou pardelas, são aves que nidificam em fendas entre as rochas. E é no Maciço Montanhoso Oriental da ilha da Madeira que encontra-se a única colônia de freiras-da-madeira de que se tem conhecimento. Demorou um pouco, mas nossa espera deu resultado. Naquela noite gelada e com muito vento conseguimos escutar, lá ao longe, as primeiras freiras que chegavam aos ninhos depois de passar o dia todo no mar. Estas aves devem ter assustado muito os primeiros habitantes da ilha, pois o som que fazem em meio à escuridão (escute aqui!) é tenebroso.

Ilhas Desertas

Ilha Deserta Grande

O dia seguinte foi reservado para conhecer as ilhas Desertas. Partimos de Funchal, capital da Madeira, e velejamos por mais de três horas até chegar à ilha Deserta Grande. Lá há um centro de recepção de visitantes e é possível ver de pertinho ninhos de alma-negra (Bulweria bulwerii) e bobo-grande (Calonectris borealis).

Corre-caminhos

Corre-caminhos (Anthus berthelotii)

Na caminhada ao redor do centro de visitantes encontramos muitos canários e finalmente consegui fotografar o corre-caminhos, espécie endêmica da Macaronésia. De volta ao mar, tivemos a oportunidade de observar bobos-grandes, almas-negras, gaivotas, trinta-réis…

Cagarra

Bobo-grande (Calonectris borealis), que por lá recebe outro nome: cagarra

Trinta-réis-boreal

Trinta-réis-boreal (Sterna hirundo), espécie conhecida em Portugal como gaivina ou garajau

Mas foram os cetáceos que roubaram a cena: cerca de 20 golfinhos acompanharam a embarcação por vários minutos, o que certamente foi um momento inesquecível para todos!

Delphinus delphi

Golfinho-comum (Delphinus delphis)

No último dia da visita à Madeira estivemos na Ponta de São Lourenço e lá avistamos alguns francelhos. Esta ave comporta-se como nosso gavião-peneira e paira no ar em busca de presas. Mas foi na Ponta do Garajau, não muito longe dali, que consegui fazer o registro abaixo. Também é um bom lugar para ver andorinhões-da-serra (Apus unicolor), mais uma ave endêmica da Macaronésia.

Francelho

Francelho (Falco tinnunculus canariensis), também conhecido como penereiro-de-dorso-malhado

À tarde visitamos um dos locais recuperados pelo projeto LIFE Fura-bardos, que tem como objetivo a conservação desta ave de rapina e de seu habitat natural, a floresta Laurissilva (veja na foto de capa deste post, esta floresta parece ter saído de um conto de fadas). O fura-bardos (Accipiter nisus granti) é um pequeno gavião florestal, bastante esquivo e difícil de observar.

Projeto Fura-bardos

Curti demais cada minuto que passei na ilha da Madeira. Foi a primeira vez que participei de uma atividade com a SPEA e a visita organizada por eles superou muito minhas expectativas. Conseguimos fazer muita coisa em pouco tempo, em um lugar que exige uma excelente logística porque tudo é muito distante. E me diverti muito! Deixo um abraço enorme para todos os colegas de viagem, que acolheram esta brasileira perdida em terras lusitanas e ajudaram a tornar esta experiência ainda mais especial. Saudades de todos!